Leni Riefenstahl: uma cineasta para o Terceiro Reich

Autoretrato com uma câmera Leica.

A controversa passagem de Leni Riefenstahl pela história do cinema é também impressionante.

Isto porque Leni foi a principal artista por trás de muitos dos filmes considerados como propaganda nazista na década de 1930. Nascida em 1902, Riefenstahl era uma mulher peculiar para sua época. Foi dançarina, atriz, cineasta, fotógrafa, praticou ski, montanhismo e mergulho.

Leni Riefenstahl esquiando. Capa da revista Time de fevereiro de 1936.
Leni Riefenstahl esquiando. Capa da revista Time, de fevereiro de 1936.

Mas Riefenstahl realmente se destacou por utilizar a linguagem cinematográfica de maneira muito sofisticada ao expressar ideias e valores da Alemanha nazista em filmes como “Olympia” e “Triunfo da Vontade”, com inusitados ângulos, enquadramentos e movimentos de câmera, processos e estéticas inovadores para época.

O cinema de Riefenstahl representava os novos e sinistros ideais germânicos: força, beleza e disciplina; em oposição as temáticas trágicas e decadentes do cinema expressionista alemão, que marcou a década de 1920, com personagens grotescos, esquizofrênicos e perigosos em cenários obscuros e distorcidos, que expressavam como seus realizadores percebiam o mundo.

Filmando “Olympia”, em 1936. Berlim.

Após a guerra, Riefenstahl ficou presa durante quatro anos, condenada pela sua colaboração com o regime nazista para, por fim, ser inocentada pelos tribunais alemães. No entanto, não conseguiu mais apoio para a realização de seus filmes, dedicando-se posteriormente a fotografia. Em 1974 e 1976 publicou dois livros sobre guerreiros da tribo Nuba no Sudão. Perto dos 80 anos, Leni aprendeu mergulho e iniciou práticas com fotografia submarina, lançando em 2002 um documentário sobre o tema: “Impressões Subaquáticas”.

Leni Riefenstahl. 1976.
Leni Riefenstahl. 1976.
Leni Riefenstahl mergulhando em 1980.
Leni Riefenstahl mergulhando em 1980.

Em sua defesa, Leni sempre afirmou-se ingênua e apolítica, sem saber o que acontecia com milhares de pessoas nos campos de concentração enquanto produzia os filmes especialmente encomendados para o Terceiro Reich. Entendia que entregar um bom filme era sua única missão.

Em entrevista,  Riefenstahl chegou a dizer que sua busca na vida era pela “beleza e harmonia” – “a realidade não me interessa.” Esta justificativa é ainda questionada e muitas pessoas estudiosas sobre o assunto defendem que a cineasta foi ferramenta fundamental do bárbaro regime nazista, pelo qual tinha declarada simpatia, apesar de nunca ter se afiliado ao partido. Para Riefenstahl, a morte seria um “alívio”, após a dificuldade de carregar por tantos anos o fardo de ter sido associada aos valores nazistas, o que sempre considerou uma mentira caluniosa. Para Leni, conhecer Hitler, foi “a maior catástrofe de sua vida”.

Leni Riefenstahl com Adolph Hitler.
Leni Riefenstahl com Adolph Hitler.

Leni escreveu um livro de memórias e muitos outros biógrafos e documentaristas se interessaram por sua história. Viveu até 2003, chegando aos 101 anos. Uma vida enigmática marcada pela arte, horror e beleza.

Desta história, ficam perguntas: existe alguma expressão artística que possa ser considerada apolítica? É possível a dimensão estética superar a ética? No contexto da Alemanha nazista, aonde muito esforço foi empreendido em conduzir mentalidades, seria possível compreender o mundo com lucidez? De alguma maneira, ainda cultuamos uma suposta beleza, sem confrontar suas implicações sociais?

Mais sobre Riefenstahl:

  • Arnold Franck foi o primeiro a produzir filmes de um gênero cinematográfico que ficaria conhecido como “filmes de montanha”, muito popular na época. Riefenstahl foi escolhida por Franck como protagonista de  The Holy Mountain (1926), a primeira de muitas produções semelhantes nas quais Leni atuaria.
Cena de "The Holy Mountain", estrelado por Leni Riefenstahl em 1926.
Cena de “The Holy Mountain”, estrelado por Leni Riefenstahl em 1926.
Poster do filme "The Blue Light", lançado em 1932.
Poster do filme “The Blue Light”, lançado em 1932.

1934. Leni Riefenstahl com uma câmera em um elevador operado por cabos, durante as filmagens de “Triunfo da Vontade”. As imagens são do Congresso do Partido em Nuremberg, na Luitpold Arena, ocasião em que ficou proibido o casamento entre alemães e judeus.
  • Uma de suas realizações mais conhecidas foi “Olympia”, um documentário que registrou os Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim, e que marcou a maneira como a prática de esportes seria representada em produções audiovisuais posteriores.
Imagem de "Olympia", lançado em 1938.
Imagem de “Olympia”, lançado em 1938.

Referências:

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